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Lendo Mulheres, Literatura

[Lendo Mulheres] Dercy de Cabo a Rabo

Quando as pessoas pensam em Dercy Gonçalves, certamente vem à cabeça aquela velhinha que, de 10 palavras que falava, 15 eram palavrão.

 

E essa figura – a da comediante que abusava dos palavrões pra fazer graça – tomou tamanha proporção que é difícil encontrar quem saiba mais alguma coisa da Dercy. É o perigo da história única, que Chimamanda Ngozi Adichie explicou tão bem.

 

Não sei se foi por ocasião do aniversário de 108 anos da atriz e comediante, mas o Canal Viva reprisou, no mês passado, a minissérie Dercy de Verdade, baseada na biografia de Dercy escrita por Maria Adelaide Amaral.

 

Comecei a ver a minissérie por acaso, e acabei ficando intrigada pela história de Dercy Gonçalves. E acabei encontrando a biografia Dercy de Cabo a Rabo no Kindle Unlimited. Deixei a série de lado para ler o livro.

 

 

dercy de cabo a rabo

 

E foi por encontrar uma mulher singular que decidi falar sobre o livro aqui. Na verdade, uma coisa que me sempre me incomodou era que, quando eu mesma falava palavrões, minha família sempre dizia que eu acabaria como a Dercy, como se aquilo fosse uma ofensa ou uma coisa muito ruim. Minha mãe sempre dizia que a detestava.

 

Eu nunca fui muito fã do humor dela, na verdade. Os palavrões me incomodavam um pouco mas eu não via muito além disso, mas isso foi há muitos anos, eu era outra pessoa e tinha uma outra visão da vida.

 

Agora, depois de ler sua biografia, descubro que tenho muito mais em comum com ela e que, se acabar como ela acabou, não seria nada ruim. O que encontrei foi a história de uma mulher que nunca se enquadrou nos padrões da sociedade. Que, por ser uma pessoa alegre, cheia de vida e que dizia o que pensava, foi tachada das piores coisas em sua cidade natal e ao longo da vida. E que viveu a vida como queria, de acordo com o que lhe foi oferecido.

 

Morreu aos 102 anos sem amargura e amando a vida. Não vejo como isso pode ser um mau fim.

 

Uma vida bem lutada, uma luta bem vivida

 

 

Sim, ela era um bocado desbocada na comédia, porque descobriu que aquilo ao mesmo tempo chocava as pessoas e fazia rir. E, tendo uma vida pessoal difícil (fugiu de casa, entre outras coisas, pelos maus-tratos do pai), teve de se virar para sobreviver. A saída foi ser atriz. E, no começo do século passado, ser atriz era visto pela sociedade da mesma maneira que a prostituição era vista.

 

Dercy era chamada de vadia pelos conterrâneos sem nem ter começado a vida sexual. Tudo porque não era submissa e não se conformava com os protocolos sociais, porque era uma moça “respondona”. Então, se era chamada de vadia e coisas piores, ela assumiria a fama e seria atriz.

 

A gente fica entre o riso e a pena na passagem em que ela pergunta a uma amiga porque as pessoas a chamavam de p*** em sua cidade. Quando a amiga lhe disse, ela ficou chocada. Sequer sabia o que era sexo. Isso na década de 20, quando o tabu e a desinformação eram muito maiores.

 

Uma vida de 102 anos não pode ser resumida em um post de blog, mas o que eu posso dizer é que Dercy foi uma mulher batalhadora, que enfrentou a vida da maneira que podia e que deu certo. Teve seus altos e baixos, foi contraditória como todo ser humano. Algumas atitudes dela são discutíveis, mas sincermente, não vou julgar ninguém.

 

O legado de Dercy Gonçalves

 

O que fica, para mim, é a imagem da pessoa contestadora, que se virou com o que a vida lhe ofereceu. Muito sincera, honesta até demais e que deu ao seu público o que ele esperava. Que cometeu erros, mas encarou todos eles de frente. Dercy tinha uma atitude muito desapegada diante da vida. Se havia um problema era preciso resolver, se não dava certo era preciso tentar de outro modo, se ela gostava, gostava; se era contrariada, dizia.

 

Ela nunca entendeu a razão de uma série de protocolos sociais e sempre foi muito clara e determinada ao decidir não cumpri-los, simplesmente porque não via motivo para isso.

 

Em seu tempo, ela foi muito mais livre do que muitas mulheres da atualidade.

 

Por ser uma pessoa tão autêntica, complexa, multilateral, Dercy ganha minha admiração. É uma mulher que faz parte da história do teatro e da TV brasileiras, e sua própria história merece ser conhecida. Pioneira, extremamente talentosa e com uma visão incrível das coisas.

 

Dercy, de verdade, foi uma mulher sensacional.

 

[Este post faz parte da série Lendo Mulheres – saiba mais sobre aqui neste link]

 

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